O que precisa estar num laudo de ensaio de piso elevado, os quatro sinais de um laudo que não serve, e como ler os laudos internacionais que chegam nos memoriais de multinacional.
Por que o laudo é mais importante aqui do que em outros materiais
No piso elevado brasileiro, o laudo não é um documento acessório. Em vários casos ele é o único documento que existe.
A NBR 11802 descreve três placas: aço, madeira aglomerada de alta densidade encapsulada em aço, e madeira aglomerada de alta densidade. Ardósia, granito e porcelanato não estão descritos em norma brasileira nenhuma. Isso não os torna irregulares: torna o ensaio de laboratório o lugar onde a comprovação acontece, aplicando os critérios de carga da norma àquele material específico.
Ou seja: quando você compra pedra e aceita um laudo fraco, você ficou sem nada.
O que precisa estar no laudo
A identificação exata da placa ensaiada. Fabricante, modelo, dimensões, espessura de chapa, tipo de núcleo, revestimento. Se o laudo descreve “placa metálica 60x60cm, 30mm” e para por aí, ele não comprova o produto que está na sua obra, comprova alguma placa, em algum lugar, algum dia.
O método: qual ensaio foi feito e por qual procedimento.
Carga distribuída e carga concentrada são ensaios diferentes.
O ponto de aplicação: placa de piso elevado não se comporta da mesma forma no centro e nas bordas.
Laudo que ensaia apenas o centro descreve a situação mais favorável, e não a condição crítica.
A carga aplicada, a flecha medida e a deformação residual: os três.
Já expliquei em outro post por que a flecha sozinha não basta e por que a residual é a que ninguém olha.
O coeficiente de segurança verificado: a norma pede 3.
O laboratório e a data: o laboratório precisa ter escopo compatível com o ensaio, e o ensaio precisa ser recente.
Linha de produção muda com o tempo, a começar pela matéria-prima, e um laudo antigo pode não descrever mais o produto que está sendo vendido hoje.
Os quatro sinais de um laudo que não serve
Descrição vaga do corpo de prova. É o mais comum e o mais grave. Um único ensaio genérico vira cobertura para vender qualquer coisa com aquela dimensão, inclusive lote usado e recondicionado. Em breve libero um post somente sobre esse tema.
Só a carga, sem flecha. Número solto.
Ensaio só no centro da placa. Meia informação.
Laudo do fabricante, não de laboratório. Relatório interno de controle de produção é útil, mas não é laudo de terceira parte. A norma fala em laboratório idôneo por um motivo.
O que o resto do mundo faz e por que isso interessa a você
Essa parte quase não existe em português, e é a que mais me ajudou a entender o que estava faltando nos laudos que eu recebia.
Fora do Brasil, o piso elevado tem três referências principais, e elas não fazem a mesma coisa.
PSA MOB PF2 PS/SPU, Reino Unido. É especificação de desempenho, não descrição de produto: cada placa, pedestal e componente de apoio precisa passar por uma série de ensaios controlados de resistência, durabilidade, segurança e qualidade de fabricação. Ela reúne requisitos de precisão dimensional, movimentação por umidade e temperatura, categorias de resistência, segurança contra incêndio, acabamento da placa e continuidade elétrica, e divide os sistemas em quatro categorias: leve, média, pesada e extrapesada, indicando qual delas cabe em cada tipo de aplicação. A categoria leve suporta 2,7kN de carga concentrada e a média, 4,5kN. E a associação britânica do setor trabalha com expectativa de vida útil mínima de 25 anos para o sistema.
EN 12825, Europa. Define características, requisitos de desempenho e métodos de ensaio para sistemas modulares de fabricação industrial compostos por placas e pedestais, com classificação por carga de ruptura. São seis classes de carga de ruptura, de 4kN até acima de 12kN, e o coeficiente de segurança pode ser escolhido entre 2 e 3.
CISCA, Estados Unidos. Publica os “Recommended Test Procedures for Access Floors”. E aqui está o dado que mais me surpreendeu quando fui atrás: a CISCA estabelece os procedimentos de ensaio: carga concentrada, carga de ruptura, carga rolante, carga em longarina, carga axial de pedestal e momento de tombamento do pedestal, mas esses procedimentos não fixam valores de resultado, e não existe padrão de desempenho de carga com o qual todos os fabricantes concordem.
Guarde essa última frase. Ela significa que “ensaiado conforme CISCA” não é uma afirmação de desempenho. É a afirmação de que alguém seguiu um roteiro de ensaio. Sem os números, não diz nada.
Três coisas que aprendi lendo essas referências
1. O ensaio sério procura o ponto fraco, não o ponto forte.
Essa é a validação internacional daquilo que eu escrevi lá em cima sobre ponto de aplicação. Na aplicação da EN 12825, a classificação em classes de carga é feita a partir da carga de ruptura medida no ponto de carga mais desfavorável do elemento, em ensaio de curta duração, e a carga pontual de uso resulta da aplicação de um coeficiente de segurança de no mínimo 2,0.
O ponto mais desfavorável. Não o centro. Um laudo que ensaia o centro da placa e informa aquele valor está descrevendo a melhor hipótese possível, e a placa nunca falha na melhor hipótese.
2. Deformação residual tem número lá fora, e não tem aqui.
A nossa norma trabalha com carga e flecha. A residual, o quanto a placa não volta depois que o peso sai, não aparece com limite. Nas especificações americanas construídas sobre os procedimentos da CISCA, ela aparece: o ensaio de carga concentrada em longarina, por exemplo, exige deformação permanente não superior a 0,010 polegada depois de removida a carga, cerca de 0,25mm.
Não estou dizendo que 0,25mm é o limite brasileiro. Estou dizendo que existe um número de referência publicado, e que ele é pequeno. Se o seu laudo traz residual e ela está em milímetros inteiros, vale perguntar.
3. Carga rolante tem ensaio pronto e ele descreve exatamente a sua obra.
As referências americanas desenvolvem o ensaio de carga rolante, e o método é concreto: aplica-se a carga através de um rodízio rígido de 75mm de diâmetro por 25mm de largura, que é rolado atravessando o centro da placa, e o conjunto precisa suportar 20 passagens sem delaminação ou separação do revestimento.
Vinte passagens de um rodízio pequeno e duro. É a descrição do carrinho de servidor, da paleteira e do carrinho de material de obra. Se o seu projeto tem circulação de carga, esse é o ensaio a pedir, mesmo que ele não esteja na norma brasileira.
E existe um quarto ensaio que quase ninguém pede aqui: o momento de tombamento do pedestal. Nas especificações americanas ele é feito com o pedestal colado a uma superfície de concreto limpa e sem revestimento, exigindo um momento médio determinado, e ainda se pede comprovação da estabilidade lateral do sistema em condição sísmica. Ou seja: lá a colagem do pedestal é tratada como item estrutural e ensaiada. Aqui ela é tratada como opcional, e é justamente o item que a nossa norma exige no 4.3.2 e que o setor mais ignora.
Como ler o código de um laudo europeu
Isso é prático, porque memorial de multinacional chega com esse código escrito, e quase ninguém sabe lê-lo.
A EN 12825 usa um código de quatro partes, por exemplo 3/A/3/2. Cada posição significa uma coisa: a primeira é a classe de carga de ruptura, a segunda é a classe de flecha sob carga de trabalho, a terceira é o coeficiente de segurança e a quarta é a classe de tolerância dimensional. Num exemplo publicado por um fornecedor britânico, 3/A/3/2 corresponde a carga de ruptura acima de 8kN, flecha abaixo de 2,5mm, coeficiente de segurança 3 e classe 2 de tolerância. Para data center, as classificações citadas costumam ser 4/A/3/2, 5/A/3/2 ou 6/A/3/2, conforme a carga, cobrindo racks e equipamento de climatização com cargas pontuais de trabalho de 3kN a 4kN ou mais.
Se você receber um memorial com esse código e devolver um laudo brasileiro de carga e flecha, você não está respondendo à mesma pergunta. Vale traduzir explicitamente na proposta.
O detalhe que muda quem assina o laudo
E aqui está, para mim, a informação mais útil desta pesquisa toda.
Sistemas classificados pela PSA são ensaiados e certificados de forma independente. Já os sistemas conformes à EN 12825 são certificados pelos próprios fabricantes, que realizam os seus próprios ensaios. E a EN 12825 cobre essencialmente os aspectos estruturais e dimensionais: não trata de prática de instalação, nem de desempenho em uso, nem de carga dinâmica, fluência ou efeito das condições ambientais.
Traduzindo: nem toda referência internacional citada num memorial significa terceira parte. “Conforme EN 12825” pode ser autodeclaração do fabricante. Isso não é fraude, é como a norma funciona, mas muda completamente o peso do documento, e é exatamente o mesmo problema que eu descrevi lá em cima sobre laudo de fabricante no Brasil.
Então a pergunta que vale para os dois mundos é a mesma: quem fez o ensaio, e o ensaio é do produto que vai chegar na minha obra?
A parte que quase ninguém usa
A norma prevê inspeção em fábrica. Você pode exigir isso em contrato, e você pode simplesmente ir.
Visitar a fábrica antes de fechar um volume grande é o método mais direto que existe, e ele responde perguntas que nenhum documento responde: se existe linha de produção mesmo, se o estoque de matéria-prima é compatível com o volume prometido, e se tem placa usada empilhada no fundo do galpão esperando recondicionamento.
Eu recebo visita. Qualquer fábrica de verdade recebe.
O parágrafo que resolve isso no seu memorial
Se você quiser transformar tudo o que está aqui em exigência contratual, é isto:
“O fornecedor deverá apresentar laudo de ensaio emitido por laboratório de terceira parte, contendo a identificação completa do produto efetivamente fornecido (fabricante, modelo, dimensões, espessura, núcleo e revestimento), o método de ensaio, os pontos de aplicação incluindo a condição mais desfavorável, a carga aplicada, a flecha medida, a deformação residual e o coeficiente de segurança verificado. Não será aceito laudo genérico, laudo de linha diversa da fornecida, nem relatório interno de controle de produção em substituição ao laudo.”
E, se a obra tiver circulação de carga, acrescente o ensaio de carga rolante com o número de passagens.
Por Bruno Nakamura
Sócio-fundador da Pisos Elevados Brasil