Qual placa e qual revestimento entram em data center, sala elétrica, hospital, escritório e área externa, e o que cada ambiente elimina.
Hoje mesmo chegou aqui um memorial descritivo de uma empresa de grande porte, com operação internacional. Vinha em duas versões, uma em português e uma em inglês. Não era tradução de uma para a outra: eram documentos com conteúdo diferente.
Na versão em inglês estava a altura do sistema, 300mm. Na versão em português, essa informação não existia. Tive que abrir o documento em inglês para descobrir a altura da obra que eu estava orçando.
E havia uma segunda divergência, essa mais cara. A versão em inglês pedia fórmica, ou seja, HPL comum. HPL é a sigla de high pressure laminate, laminado de alta pressão, o mesmo material que o mercado brasileiro chama de fórmica. A versão em português pedia revestimento antiestático. São dois produtos diferentes, com dois preços diferentes, no mesmo memorial.
O detalhe é que esse documento era bem feito. Citava normas internacionais, mandava conferir tudo contra a ABNT e nomeava a NBR 11802 corretamente, coisa que quase nenhum memorial faz. Tecnicamente ele estava acima da média do que eu recebo. E mesmo assim não especificava.
É esse o ponto deste texto. O memorial não falha por ignorar a norma. Ele pode citar a norma certa, e continuar sem dizer qual produto vai ser comprado.
A norma não escolhe material. Ela diz o que a placa tem que aguentar depois que o material já foi escolhido. Quem escolhe o material é o ambiente.
Então vou fazer o caminho na ordem certa. Primeiro o ambiente, depois o material, depois a funcionalidade, e só no fim a exigência que você cobra do fornecedor.
A pergunta que decide tudo
Antes de qualquer coisa: o que esse ambiente exige do piso elevado?
São quatro exigências possíveis, e quase todo projeto cai em uma delas:
Exigência elétrica:
Ela se desdobra em duas coisas diferentes, que costumam ser confundidas: descarga elétrica, e dissipação de eletricidade estática. São riscos distintos, e um ambiente pode ter um sem ter o outro.
Contato com água:
Não é umidade ambiente. É lavagem com saneante, protocolo de higienização, superfície que vai ser molhada de propósito e com frequência.
Exposição a intempéries:
Sol, chuva, variação térmica.
Carga rolante:
Circulação de equipamento com carga: empilhadeira, paleteira, carrinho de servidor.
Se nenhuma das quatro se aplica, o ambiente é administrativo, e a decisão passa a ser de custo e acabamento. É uma decisão legítima. Só não é uma decisão técnica, e não deveria ser escrita como se fosse.
Ambiente por ambiente
- Data center e CPD
O que decide aqui é a exigência elétrica, nas duas formas ao mesmo tempo. A eletricidade estática precisa ter por onde escoar, e o caminho passa pelo revestimento, pela placa, pela estrutura e pelo pedestal, até o ponto de aterramento.
Piso elevado metálico com pedestal metálico. Revestimento em HPL dissipativo ou condutivo, assentado com cola condutiva.
A cola merece um parágrafo próprio porque ela quase nunca é especificada. Não adianta escolher um laminado que conduz e assentar com cola comum: a cola comum isola e interrompe o caminho. O piso é executado, aparentemente está tudo certo, e ele reprova na medição de resistência elétrica do comissionamento, sem que a placa ou o revestimento estejam errados.
E aqui está a razão de o piso elevado de ardósia, de granito, de quartzito, de porcelanato e o cimentício não entrarem em sala de dados. Não é um problema de pedestal apenas. Nenhum desses materiais conduz, e nenhum deles existe em versão com pedestal metálico, todos trabalham com pedestal de polipropileno, que também não conduz. Não se aterra plástico, nem pedra.
Vale dizer isso com todas as letras porque existe uma tentativa recorrente de solução do meio: colocar pedestal metálico aterrado embaixo de uma placa que não conduz. Não resolve nada. O caminho precisa ser contínuo do revestimento até a terra. Interrompido em qualquer ponto, ele não existe.
- Sala elétrica
Aqui o risco é outro, e por isso o revestimento muda. Essa é a diferença que mais se erra por analogia com data center.
Em sala elétrica o risco é descarga elétrica: corrente da instalação encontrando um caminho até a pessoa. Não é eletricidade estática acumulada na superfície procurando por onde escoar, que é o caso do data center. São os dois desdobramentos da exigência elétrica, e eles pedem soluções diferentes.
Por isso não existe motivo para especificar revestimento dissipativo ou condutivo aqui; ele não tem função. Laminado melamínico convencional resolve. Uma superfície que não conduz para cima, nesse ambiente, é vantagem.
O aterramento é o meio de tratar esse risco, e sobre ele vale uma ressalva: a exigência e a forma de executá-la vêm do projeto elétrico da sala, não do fornecedor de piso. Quem define é o engenheiro eletricista que projetou o ambiente. O que cabe ao piso é ser compatível com o que o projeto pedir.
E existem dois caminhos compatíveis, não um só.
O primeiro é o piso elevado metálico com pedestal metálico, quando o projeto exigir aterramento da estrutura. Nesse caso a estrutura precisa estar ligada ao barramento de equipotencialização em pontos distribuídos, e não num ponto único. O aterramento não impede a estrutura de conduzir, ela conduz de qualquer forma. O que ele faz é garantir que a corrente vá para a terra em vez de ir por uma pessoa, e que toda a estrutura fique no mesmo potencial. Estrutura metálica acessível e não aterrada é o pior cenário dos três.
O segundo é o piso elevado de pedra com pedestal de polipropileno (ardósia, granito, ou ardósia com revestimento) quando não houver exigência de aterramento da estrutura. Se não existe metal acessível no sistema, não existe massa para equipotencializar. Nesse caso o sistema precisa ser coerente até o fim: rodapé, perímetro e qualquer peça de acabamento. Sobrando uma peça metálica acessível, você caiu de volta no cenário do meio.
Um detalhe prático que quase ninguém registra: no Brasil, painel elétrico não fica sobre piso elevado. Ele é montado sobre estrutura de serralheria reforçada, independente do piso. O piso elevado circula em volta. Ou seja, a discussão de carga do pedestal, que normalmente seria o limite da opção em pedra, não se aplica aqui.
- Hospital
O que decide é resistência à higienização. O piso é lavado com saneante, e material poroso absorve, mancha e retém sujidade. A propriedade que mede isso é a absorção de água, e nesse caso existe número.
A RDC 50 da Anvisa, que trata do projeto físico de estabelecimento assistencial de saúde, é objetiva: material de acabamento em área crítica não pode ter absorção de água superior a 4%, e o rejunte tem que atender ao mesmo índice. A resolução também veda placa cerâmica dos grupos de absorção mais altos nessas áreas. Não é uma exigência vaga de “material lavável”. É ensaio, com limite.
Isso não é teoria. Fizemos um hospital no Maranhão em que a intenção era usar granito, e a pedra reprovou no ensaio de absorção. Não passou, e o hospital barrou.
E aqui entra a distinção que quase todo memorial perde: em hospital, base e acabamento são decisões separadas. A placa do piso elevado funciona como base de nivelamento. Não é ela que é lavada. O limite de absorção se aplica ao revestimento que vem por cima, não a ela.
Por isso granito, ardósia e cimentício podem servir de base, mesmo reprovando como acabamento. No Maranhão a solução foi exatamente essa: piso elevado de ardósia como base, para vencer os 40cm de altura, com porcelanato assentado por cima com argamassa, de forma convencional. Naquela obra o piso não precisava ser removível, o objetivo era nivelar, não sacar placa toda hora, que é o que costuma acontecer em hospital.
Entre os materiais de base, a ardósia costuma ser a escolha, por ser a mais em conta. A outra opção é o piso elevado de porcelanato direto, com uma ressalva de cronograma: não há fabricação nacional, então o prazo de importação entra na obra.
O que eu não colocaria em hospital é piso elevado metálico. Não por norma: por corrosão. Qualquer infiltração vira troca de placa, e trocar piso no meio da operação de um hospital significa parar ala. A vida útil é bem menor que a de um sistema em pedra com pedestal de polipropileno, que fica lá décadas.
Qual revestimento vai por cima, porcelanato ou vinílico hospitalar, é decisão do projeto de arquitetura, e não é a nossa área.
- Corporativo, área administrativa e circulação
Aqui nenhuma exigência técnica decide sozinha. Não há aterramento a atender, não há lavagem com saneante, não há intempérie. O que decide é custo, acabamento e a facilidade de mudar o layout depois.
Esse é o ambiente onde mais se erra por excesso. Memorial de escritório que copia requisito de data center compra uma placa que a sala não precisava, e paga por isso.
A disputa real é entre o piso elevado metálico e o piso elevado de ardósia. Os dois funcionam como base para receber carpete, vinílico ou porcelanato, e competem diretamente nesses ambientes. O que decide entre eles costuma ser o custo, justamente porque nos dois casos a placa vai ficar coberta.
A ardósia ainda tem um segundo uso, que o metálico não tem: aparente, com resina, sem revestimento nenhum. É escolha estética, comum em projeto de linguagem industrial, com aspecto próximo ao do cimento queimado.
Ao lado dos dois fica o piso elevado de granito ou de quartzito com a pedra aparente, polida ou acetinada. Aí o acabamento é o próprio material, e não há revestimento por cima.
Uma nota de vocabulário, porque isso confunde na hora de especificar: em piso elevado usamos acetinado, que é o equivalente ao que a marmoraria chama de levigado. Trocamos o termo de propósito. Levigado faz muita gente pensar em fechar poro, como se faz no travertino, e não é disso que se trata. Acetinado é o termo que o porcelanato já usa, e o cliente entende o produto como piso, que é o que ele é.
O que sai daqui é o piso elevado cimentício, e não por acabamento. Ele é mais espesso, então come altura útil e reduz o vão disponível. É bem mais pesado, então joga peso na laje. E o metro quadrado é mais caro, ao contrário do que quase todo mundo supõe: a placa cimentícia de piso elevado precisa de aditivo, de tela e de uma série de estruturação, e isso encarece a peça. A confusão vem do cimentício de assentamento, que é barato, mas é outro produto.
- Área externa
O que decide é intempérie. Chuva, sol e variação térmica. E o acabamento errado vira piso escorregadio quando molha.
Entram o piso elevado de granito bruto ou flameado, o piso elevado de ardósia, o piso elevado cimentício e o piso elevado de porcelanato, todos com pedestal de polipropileno.
Sai o granito polido ou acetinado, que escorrega molhado. Repare que o granito está nos dois lados da lista: o que muda não é a pedra, é o acabamento. Saem o vinílico e o laminado, que não suportam exposição. Sai o piso de vidro. E sai o quartzito, por dois motivos somados: escorrega, e é material nobre demais para ficar exposto.
Entre os que entram, o piso elevado cimentício vem perdendo espaço para o granito flameado e para o porcelanato. Não por desempenho: o metro quadrado da placa é mais caro, e o peso encarece o frete e a mão de obra de instalação. O custo final sobe pelos dois lados.
Ele continua ganhando em uma coisa, e ela não é pequena em projeto: controle de cor e de paginação. O cimentício é produzido, então a cor sai igual em todas as placas e o resultado é previsível. Pedra natural é extraída, e varia de bloco para bloco, em área grande a diferença aparece. Se o projeto depende de uniformidade, essa vantagem pode valer mais que a diferença de preço.
Aqui cabe a comparação certa para esse produto, que é diferente da do escritório. O piso elevado cimentício não compete com outras placas de piso elevado. Ele compete com sistema construtivo. Em circulação e área externa, o que ele substitui é laje, mais impermeabilização, mais contrapiso, mais assentamento de revestimento, com todo o cronograma que isso carrega. Contra uma contralaje de 50, 60, 80cm, ele fica barato. Contra outra placa de piso elevado, fica caro.
E um ponto que quase todo memorial erra por analogia com piso convencional: não se especifica caimento no piso elevado. As juntas entre placas não são rejuntadas, a água desce por elas, e o piso fica todo nivelado, sem ralo aparente. O caimento e o escoamento ficam na laje, embaixo do sistema. A impermeabilização também: ela é da laje, não do piso elevado.
- Indústria com empilhadeira
Esse é o único ambiente em que eu não dou uma resposta de tabela, e prefiro ser honesto sobre isso.
Carga rolante não é carga concentrada com outro nome. É peso em movimento, com impacto a cada junta de placa, repetido milhares de vezes. A especificação depende de uma análise específica: peso do equipamento carregado, área de contato da roda, frequência de circulação e trajeto.
Quem escreve “piso elevado de alta resistência” num galpão com empilhadeira não especificou nada.
A tabela
| Ambiente | O que decide | Placa e pedestal | Revestimento | O que não entra |
|---|---|---|---|---|
| Data center / CPD | Aterramento e dissipação de eletricidade estática | Piso elevado metálico com pedestal metálico | HPL dissipativo ou condutivo, com cola condutiva | Ardósia, granito, quartzito, porcelanato e cimentício: não conduzem e trabalham com pedestal de polipropileno, que também não conduz |
| Sala elétrica | Descarga elétrica — conforme o projeto elétrico | Metálico com pedestal metálico, aterrado em pontos distribuídos; ou pedra com pedestal de polipropileno, quando não houver exigência de aterramento | Laminado melamínico convencional ou vinílico | Revestimento dissipativo ou condutivo, que aqui não tem função; estrutura metálica acessível e não aterrada |
| Hospital | Resistência à higienização (absorção ≤ 4%, RDC 50) | Base em ardósia, granito ou cimentício com pedestal de polipropileno; ou piso elevado de porcelanato direto | Porcelanato assentado ou vinílico hospitalar | Piso elevado metálico, por corrosão e troca no meio da operação |
| Corporativo / administrativo | Custo e acabamento | Metálico ou ardósia como base; granito ou quartzito com pedra aparente | Carpete, vinílico, porcelanato; ou a pedra polida ou acetinada; ou ardósia aparente com resina | Cimentício: espessura, peso e custo por m² |
| Área externa | Intempérie | Granito bruto ou flameado, ardósia, cimentício ou porcelanato, com pedestal de polipropileno. Cimentício quando o projeto exigir cores e paginações específicas | Na maioria dos casos, não se aplica. A placa é o acabamento final. | Granito polido ou acetinado, vinílico, laminado, vidro e quartzito |
| Indústria com empilhadeira | Carga rolante | Depende de análise específica | — | — |
O detalhe que reorganiza a tabela inteira
Se você olhar de novo, vai ver que a decisão quase nunca é da placa sozinha.
Em data center, o comportamento elétrico não está na superfície que você pisa: está no caminho contínuo que vai do revestimento até a terra, passando por cola, placa, estrutura e pedestal. Em hospital, quem responde pela higienização é o revestimento, e a placa é base. Em área externa, quem responde pela água é a laje, e o piso elevado é o que fica por cima dela.
Piso elevado é sistema. Memorial que especifica a placa com precisão e escreve “pedestal compatível” no fim deixou a parte que decide para quem está vendendo.
O que a norma faz nesse texto
Ela entra depois, e faz uma coisa só: transforma a escolha em exigência verificável.
Depois de definir o ambiente e o material, o memorial precisa cobrar do fornecedor os valores de carga distribuída, carga concentrada e impacto, sempre com a flecha junto, carga sem flecha é número solto, porque qualquer placa aguenta qualquer peso se ninguém disser o quanto ela pode afundar. Precisa cobrar dimensão com tolerância. Precisa cobrar a fixação do pedestal ao contrapiso. E precisa cobrar o laudo.
Os números estão no artigo sobre a NBR 11802, com o item de onde cada um sai, e não vou repetir aqui, inclusive porque eles mudam conforme o tipo e a espessura da placa, o que é justamente o tipo de coisa que se perde quando o memorial trata “placa” como se fosse uma categoria só.
As quatro frases que estragam o memorial
“Similar ou superior.”
Superior em quê? Sem o critério, a frase transfere a decisão para quem está vendendo.
“Conforme normas vigentes.”
Qual norma? Se o número não está escrito, na hora do problema não existe exigência nenhuma.
“Piso elevado de alta resistência.”
Não é grandeza. Escreva o valor e a flecha.
“Acabamento a definir.”
Definido depois, com o preço já fechado, vira aditivo. E o revestimento é onde mora boa parte do custo.
Uma exigência que cabe em uma linha
Se você só puder acrescentar uma frase ao memorial que já está pronto, acrescente esta:
“O fornecedor deverá apresentar laudo de ensaio de carga emitido por laboratório idôneo, com identificação do fabricante, modelo, dimensões e espessura de chapa da placa efetivamente fornecida, sendo vedada a apresentação de laudo genérico.”
Essa linha elimina metade dos problemas que eu vejo em obra.
Por Bruno Nakamura
Sócio-fundador da Pisos Elevados Brasil